Archive for the ‘Pequenas histórias’ Category

French balcony

25 de maio de 2010

1

Vazio e silêncio. Gritos esparsos. Vazio de novo.

Barulho dum vidro batendo de leve numa mesa de metal. Barulho seco.

Era a garrafa de whisky animando nossas vidas. Do vazio, depois da terceira dose, as coisas começaram a fazer mais sentido e o sentido das coisas.

Barulho novamente.

O bar era sujo. Azulejos portugueses e bem longe dos ateliers de Lisboa. Azulejos encardidos viraram desenhos abstratos. Conversávamos. Meu amigo de longe.  O garçom reclamava alguma coisa enquanto seu telefone não parava de tocar.

Atende essa porcaria!

Deixa tocar essa merda!!!

Forte movimento nos braços.

Deixa tocar essa merda! Já disse que não atendo quando está carregando a bateria. Eu já disse! Uma vez por semana eu coloco isso pra carregar e é o único dia que eu só atendo depois das 10h. Você já leu o manual disso? Já viu as desgraças que podem acontecer?

O garçom chega mais perto do homem ancorado no balcão, segura a gola do homem, respira, respira com mais força e diz – sussurrando – algo bizarro.

O homem parte. A garrafa bate mais uma vez. Seu barulho seco e sua vontade seca de nos levar pra outro lugar insiste. Nada existia. Era tudo branco. Aquele maldito barulho seco nos acordou. Quarta dose. Destilamos mentiras. Silenciamos o bar. O maldito telefone parou de tocar. O garçom cansou de dizer que não era a puta da semana passada. Não era ninguém e ele não atenderia até dez da noite.

2

Uma mulher entra pelo bar. Cabelos bagunçados, olhos castanhos desesperados, uma saia preta que não combinava com nada… Mesmo com os artifícios do preto aquilo não funcionava de maneira alguma.

Chega bufando. Empurra a garrafa de leve. Meu amigo segura. Aquela mulher me ameaça.

Eu já disse que você é um merda? Pelo visto já disse isso! Como eu quero te enfiar um tapa nessa cara. Onde estão as provas do livro?

Chega mais perto. Com raiva e com ódio. Chega mais perto.

Eu já disse que você é um merda? Romance? Onde já se viu? Desiste! Você não consegue passar da décima terceira página.

Interrompi ofendido. Conferi meus arquivos. Enchi o copo pra ela. Pedi uma pedra de gelo pro garçom. Seu telefone insiste e volta pro palco interrompendo. Olhei bem nos seus olhos castanhos.

Nona página. Pra seu governo. Nona.

Rimos.

3

Estou longe de casa quase que o mesmo tempo que estive perto de casa. Já quase que desisto. Enrolo meu cigarro. Tabaco de um pacote azul brilhante. Mãos que se olham. Papel fino. Delicado. Tabaco dourado. Frio de quase zero. Frio.

Eu sinto saudade. Dos olhos dela.

E senti a maior tristeza da minha vida. Era uma tristeza gelada. Senti  a maior tristeza do mundo. Uma névoa pesada encobriu a rua. Como a tristeza da minha amiga. Que disse, num dia desses que viramos noite, disse num tom quase simples, que ela só sentiu saudade um dia na vida. Numa varanda francesa. Num sobrado em Buenos Aires.

E era uma saudade gostosa.

Respira delicadamente. Sua pele morena. Seu vestido amarelo. Sua boca de batom.

Sabe? Quando eu acendi o cigarro uma névoa pesada encobriu a rua. E eu senti saudade. Chorei dias durante aquele cigarro.

Eu estava aqui. Senti a saudade do outro. A saudade de alguém. Dos olhos dela. A rua era uma rua bonita. Sobrados antigos. Perto da praça do Chile. Perto de Lisboa. Amávamos dias infinitos. Eu já não aguentava tanto amor. Tanto os olhos dela. Já era o fim de nossa eternidade.

Você pode ir lá pra fora quando quiser.

Aquela era minha oportunidade de escapar dum amor que era de entrega pura. De entrega absurda. Eu tinha minha varanda francesa. Eu tinha pouco espaço. Eu tinha o frio pesado. Eu tinha meu tabaco dourado. Eu tinha espaço.

Eu senti saudade. A maior saudade do mundo e uma névoa pesada invadiu a rua. No primeiro trago.

4

Nossa garrafa vai pela metade. Escorre.

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