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O conto insustentável

19 de janeiro de 2010

Ligo para o meu editor. Faz calor por onde passa a tal linha do Equador. Acho que é por isso que ele me trata tão mal. Mas já faz tanto tempo de nossa parceria e nenhum outro editor quer publicar esses pequenos delírios e ele ainda me serve de matéria, de palavras. A mulher dele é gostosa. Emprestou uma maquina de escrever quando eu estava à beira do abismo da fome. Quanto sofre um escritor? Até que paguem por suas primeiras palavras.

– Gostou do texto?

– Uma merda.

– Assim?

– As coisas não acontecem direito. O personagem principal não se sabe, não se sabe os antecedentes. Não se sabe nada de seu personagem. Nada acontece e você acha que fez a revolução na literatura sombria?

Desliguei. Acreditava naquele bendito texto. Ainda tinha alguns trocados para o mês e decidi investigar os porquês da impossibilidade desse meu conto. As marcas. Os personagens. As cores. Decidi deslindar tudo para tentar vender. Ainda? Ou pendurar em flâmulas nalgun lugar.

Ela morreu. Um balaço dentro da boca.

Isso já seria o suficiente para que se entendesse boa parte do que viria a seguir.

Ela morreu.

Ele carrega a arma, com o cuidado necessário, para não despertar as oito balas restantes, que agora vão no bolso da calça jeans apertada. Nada faz barulho em seus passos. Umas certas moedas decidiram bagunçar a madrugada vazia, depois que tirou o pacote de cigarros e o isqueiro do bolso. Trinta minutos o separam da fumaça de agora e a do cano do revólver. O cigarro, desanimado, quase não sai da boca. Com o cigarro ganhara alguns minutos, até a nicotina deixar de existir em sangue e virar impaciência. Acabou de matar e o maço de cigarros cobre novamente as moedas silenciando seus amigos e inimigos. Nomeadamente: o revólver, os cigarros, as balas e as poucas moedas que sobraram do ordenado. Decidiu ser esse o ultimo dia na vila que o adotara. Reservou algumas horas para ser paisagem. Laranja-fumaça de frio.

E feito o serviço. Já tem bilhete para o comboio. Não quer esperar um único raio de sol. Mais uma esquina. A passagem subterrânea. Laranja. A estação.

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